Blog TPSTRONG
Aquecimento geral x aquecimento específico
Quando iniciamos o treino, muitos professores tendem a orientar seus alunos a realizar um trabalho aeróbio, como caminhada, corrida ou remo ergômetro. Somente depois iniciam o aquecimento específico, com exercícios de mobilidade e estabilidade baseados nas disfunções encontradas na Avaliação de Movimento. Neste artigo, apresentarei uma visão fundamentada na fisiologia do corpo humano e como poderemos potencializar os resultados com a inversão da ordem dos aquecimentos.


Ilustração gerada por IA, com representação conceitual de atividade neural.
O sistema nervoso e o controle do movimento
Nosso corpo é comandado e regulado, primordialmente, por dois sistemas biológicos clássicos, complementados por uma rede estrutural de comunicação mecânica contínua. O primeiro é o Sistema Nervoso, responsável pelo controle rápido e elétrico. O segundo é o Sistema Endócrino, responsável pelo controle lento e químico (McArdle et al., 2016). O terceiro é o sistema fascial e a mecanotransdução, relacionados ao controle mecânico (Myers, 2020).
Neste artigo, o foco recairá sobre o Sistema Nervoso (SN) e suas ramificações. O SN funciona como uma rede de fibra óptica do organismo: utiliza impulsos elétricos e neurotransmissores para captar estímulos, processar informações e enviar respostas em frações de segundo.
O Sistema Nervoso é dividido em duas partes:
Sistema Nervoso Central (SNC): composto pelo cérebro e pela medula espinhal, é a central de processamento onde ocorrem a tomada de decisão consciente, a coordenação motora e a interpretação de sinais complexos, como a dor (McArdle et al., 2016).
Sistema Nervoso Periférico (SNP): é a rede de cabos que liga o SNC aos órgãos e músculos. Subdivide-se em Sistema Somático, relacionado ao controle voluntário dos músculos, e Sistema Autônomo, relacionado ao controle involuntário dos órgãos. Este último opera a “gangorra” da sobrevivência por meio das vias simpática, associada à luta ou fuga, e parassimpática, associada ao descanso e à digestão (McArdle et al., 2016).


Ilustrações fornecidas pelo autor. Uso esquemático.
O que isso tem a ver com o aquecimento?
Quando iniciamos o aquecimento em uma esteira ou em um remo ergômetro, por exemplo, o objetivo clássico é aumentar o fluxo sanguíneo, a temperatura corporal e a produção de líquido sinovial dentro das articulações, além de facilitar o deslizamento muscular por meio da vasodilatação e do aumento de líquidos inter e intramusculares (Alencar & Matias, 2010).
No entanto, esse processo ativa o Sistema Autônomo, mais precisamente o Sistema Simpático. Isso gera uma produção de catecolaminas, como adrenalina e noradrenalina, desencadeando o estado de alerta de “ataque ou fuga” e aumentando o tônus muscular e o estado de prontidão.
Se, após o aquecimento geral, avançarmos diretamente para o Bloco de Força, não há problema. Contudo, se formos realizar o Bloco de Aquecimento Específico, o corpo já se encontra sob estresse. O sistema simpático aumentou o tônus muscular para proteger as articulações, criando uma “armadura” neurológica e mecânica resistente à facilitação neuromoduladora (Kandel et al., 2021).
Por que começar pelo aquecimento específico?
Para ganhar movimento real, o Bloco de Aquecimento Específico deve vir primeiro ou após o trabalho de Liberação Miofascial. Associado à respiração diafragmática, o estímulo ao sistema parassimpático promove relaxamento, sinaliza segurança e desliga os mecanismos de inibição neural, desfazendo a “armadura”.
O ganho na preparação de movimento não ocorre por esticar mecanicamente o músculo como se fosse um elástico, mas por “hackear” o sistema nervoso para que ele permita a amplitude.
O Sistema Parassimpático vai facilitar a neuromodulação, que atua como facilitadora da neuroplasticidade, corrigindo as disfunções identificadas na Avaliação de Movimento. Isso fornece o estímulo necessário para “resetar” ou potencializar as vias neurais, reduzindo a inibição neural.
Dessa forma, devemos seguir uma lógica de “priming”, ou preparação (Cook, 2010). Os exercícios do Bloco de Aquecimento Específico são extremamente importantes para otimizar a janela de oportunidade gerada por eles, que pode durar de 30 a 90 minutos.
O aluno executa os exercícios corretivos escolhidos e avança para a próxima fase, realizando o aquecimento geral e, na sequência, o Bloco de Força, para fixar o aprendizado motor sem a “trava” da inibição neural.
O aquecimento no Sistema BASE
No Sistema BASE, o aquecimento não é um momento isolado ou apenas preparatório. Ele é parte ativa do processo de desenvolvimento do aluno. Deixa de ser genérico e passa a ser elaborado a partir de critérios claros relacionados às funções articulares, contribuindo para a qualidade do movimento, a segurança do treino e a evolução contínua ao longo do tempo.
Referências
Myers, T. W. (2020). Anatomy Trains: Myofascial Meridians for Manual and Movement Therapists (4ª ed.). Elsevier.
Hall, J. E., & Hall, M. E. (2021). Tratado de Fisiologia Médica (14ª ed.). Elsevier.
Tortora, G. J., & Derrickson, B. (2019). Princípios de Anatomia e Fisiologia (15ª ed.). Guanabara Koogan.
Kandel, E. R., Koester, J. D., Mack, S. H., & Siegelbaum, S. A. (2021). Princípios de Neurociências (6ª ed.). McGraw Hill.
Schleip, R., Findley, T. W., Chaitow, L., & Huijing, P. A. (2012). Fascia: The Tensional Network of the Human Body. Churchill Livingstone Elsevier.
McArdle, W. D., Katch, F. I., & Katch, V. L. (2016). Fisiologia do Exercício: Nutrição, Energia e Desempenho Humano (8ª ed.). Guanabara Koogan.
Cook, G. (2010). Movement: Functional Movement Systems: Screening, Assessment and Corrective Strategies. On Target Publications.
Alencar, T. A. M. D., & Matias, K. F. D. S. (2010). Princípios fisiológicos do aquecimento e alongamento muscular na atividade esportiva. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 16(3).
jornada-tmr.pdf (material clínico de referência).

