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Transmissão de força miofascial na periodização do treinamento

Como a transmissão de força miofascial pode ampliar o raciocínio sobre a periodização, a progressão e as demandas do treinamento.

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Fisioterapia

A transmissão de força miofascial amplia a maneira como podemos compreender o movimento e o treinamento de força. Durante um exercício, a força produzida por um músculo não depende apenas da relação entre músculo, tendão e osso. A tensão também pode ser distribuída por conexões existentes entre músculos e tecidos vizinhos.

Essa distribuição pode variar de acordo com a posição das articulações, o comprimento muscular, a direção da força, a carga, a velocidade e a tarefa realizada.

É importante, porém, evitar interpretações simplistas. Embora existam evidências de transferência de tensão entre estruturas, ainda não está completamente esclarecido qual é a magnitude e a relevância funcional desse fenômeno no corpo humano. Por isso, a transmissão miofascial deve ser utilizada como uma ferramenta para ampliar o raciocínio sobre o treinamento, e não como uma explicação única para desempenho, dor ou lesão.

Ilustração anatômica de um músculo com identificação do epimísio, perimísio e endomísio.

O que isso muda na prática?

A periodização tradicional busca definir quais músculos e movimentos serão treinados, além de controlar volume e intensidade. A perspectiva miofascial acrescenta outras perguntas: como a posição do corpo modifica a tensão? Quais tecidos podem participar daquela tarefa? Como a amplitude e a velocidade alteram a demanda mecânica?

Assim, em vez de pensar apenas em “qual músculo estou treinando?”, podemos observar o sistema como um todo e compreender como diferentes estruturas podem participar do movimento.

Isso não significa “periodizar a fáscia” de forma isolada. Significa organizar a exposição do sistema musculoesquelético a diferentes combinações de carga, posição, amplitude, velocidade, volume e recuperação.

Como aplicar ao longo do treinamento?

No início de um programa, o foco pode estar na qualidade do movimento e na tolerância às posições e amplitudes que serão utilizadas. Cargas moderadas, controle do movimento e progressões graduais permitem observar como o praticante responde à nova demanda.

Em seguida, é possível aumentar o volume e variar ângulos, comprimentos musculares e padrões de força. Exercícios como agachamento, levantamento terra, passada e elevação de panturrilha, por exemplo, modificam simultaneamente posições articulares, comprimento muscular e demandas mecânicas.

Com a evolução do treinamento, a intensidade e a especificidade podem aumentar. Nesse momento, é importante lembrar que trabalhar em posições mais alongadas pode aumentar a demanda mecânica, mas isso não significa, automaticamente, maior produção de força, maior ativação neural ou maior transferência para um gesto esportivo.

Na fase de realização ou preparação para uma competição, a prioridade passa a ser expressar força e potência com menor fadiga. Por isso, mudanças importantes de amplitude, velocidade ou posição não devem ser introduzidas de forma abrupta, especialmente quando o atleta não está habituado a essas demandas.

Mulher agachando com barra em uma academia, com sobreposição ilustrativa de estruturas musculares e fasciais.

A importância da progressão

Uma das estratégias mais importantes é evitar aumentar muitas variáveis ao mesmo tempo. Alterar simultaneamente carga, amplitude, velocidade, volume e complexidade dificulta a compreensão de como o organismo respondeu ao treinamento.

Uma progressão mais controlada permite observar o que realmente mudou. Primeiro, qualidade e controle; depois, aumento de volume ou amplitude conforme a tolerância; posteriormente, maior intensidade, velocidade ou especificidade.

O objetivo não é encontrar um exercício “miofascial”, mas compreender como diferentes exercícios e posições modificam a demanda sobre o sistema musculoesquelético.

Mais do que pensar em músculos isolados

A principal contribuição da perspectiva miofascial para a periodização talvez seja ampliar a pergunta que fazemos durante o planejamento.

Em vez de pensar apenas em “qual músculo estou treinando?”, podemos perguntar:

Qual sistema estou carregando, em qual posição, com qual velocidade, por quanto tempo e com que possibilidade de recuperação?

Essa forma de pensar não substitui os princípios tradicionais da periodização. Pelo contrário: amplia o raciocínio sobre como diferentes estruturas podem participar da produção e da distribuição de força.

A transmissão de força miofascial, portanto, pode ser uma importante lente de análise do movimento e do treinamento, desde que utilizada com cuidado e respeitando os limites das evidências científicas.

Sobre a autora

Manoela Meneghetti segurando um livro no espaço da SCOPO Fisioterapia.

Manoela Meneghetti é fisioterapeuta, osteopata e acupunturista, sócia-proprietária da SCOPO Fisioterapia. Possui formação e aperfeiçoamentos nacionais e internacionais nas áreas de osteopatia, movimento e reabilitação. Atua integrando conhecimento científico, experiência clínica e prática do movimento à abordagem individualizada de seus pacientes.

SCOPO Fisioterapia: @scopo_fisio

Manoela Meneghetti: @lelameneghetti

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